Estrangeira

"A noite é a mesma em todo um lado do planeta e nela ocupo um lugar único personagem entre tantos a compor a cena humana sob o foco de luz de uma sala comum. Nada há por sofrer, nada é urgente os meus estão bem e eu aparento realizada o cão me olha sereno por sobre o tapete a filha organiza retratos na gaveta a música encanta o ar fresco entre buganvílias rubras de minha varanda camarote aberto para o mundo descortino cintilâncias a tremular nas águas noturnas da lagoa
A noite é límpida e eu, lúcida espreito a vida e escrevo para entender d’onde vem tanta melancolia de quem deveria estar a fruir esta harmonia mas se debate trôpega à procura tão plena de desejos e perguntas disfarçando o coração inquieto que teima em viajar por ontens e futuros. Absorta em sonhos e platônicos amores adentro atmosferas e penumbras aspiro perfumes de outras eras prenúncio de cálidos encontros.
Oh vida que escorre pelo dia prestes a concluir-se para sempre nunca mais será hoje outra vez disso eu sei tão quanto aqui estou e no entanto, esbanjo o presente viajante estrangeira do meu próprio momento. Haverá um tempo em que a memória dessa cena será saudade e tristeza por não tê-la vivido por inteiro."
Virgínia Schall
Postado por: **Lady** às 19h29
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